Antônio já tinha trinta e três anos. Morava na periferia de Campinas, em uma casa simples de paredes ainda sem reboco, dividida com a esposa e dois filhos pequenos. Desde a infância, carregava as sequelas da poliomielite nas duas pernas, um tanto quanto atrofiadas. Caminhava devagar, apoiado em suas bengalas de madeira escura que ele mesmo havia entalhado.
Durante décadas, Antônio conheceu de perto o peso do preconceito silencioso. Não era a deficiência que mais o machucava. Era o olhar das pessoas. Em quase todas as entrevistas de emprego, a conversa terminava do mesmo jeito. A recrutadora evitava encará-lo diretamente, folheava seus documentos por alguns segundos e dizia frases educadas, mas vazias: “Depois entraremos em contato”. Nunca entravam.
Seu filho mais velho, Marcelo, de 7 anos, certa vez perguntou por que o pai nunca usava uniforme como os outros homens do bairro. Antônio sorriu, mas não respondeu. Naquele tempo, o silêncio também era uma forma de proteção.
Cansado de ser discriminado e humilhado nos processos seletivos, Antonio entrou em depressão e quase não saia mais de casa. Até que um dia, incentivado por sua esposa e inspirado na vivacidade de seus filhos foi participar de uma nova entrevista de emprego numa metalúrgica da cidade, que havia anunciado algo inédito para ele e todos da região, se tratava de um programa de contratação de pessoas com deficiência para cumprir a nova política de cotas.
Era o ano de 1991. Deprimido e desconfiado, Antonio foi para a entrevista. Achava que seria mais uma humilhação. Vestiu a única camisa social que possuía, já um pouco gasta nos punhos, e pegou dois ônibus até a empresa. Fez a entrevista, relatou suas habilidades e qualidades, pouco falou sobre sua deficiência. Dois dias depois saiu o resultado e Antônio fora contratado como empregado CLT.
Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, Antônio chorou escondido na cozinha. Não de tristeza. De alívio. Com o salário fixo, a família conseguiu terminar a construção da casa. A esposa voltou a estudar. Os filhos permaneceram na escola. Anos depois, Marcelo tornou-se professor de matemática.
Este mês (julho de 2026) completamos 35 anos da lei de cotas para pessoas com deficiência (Lei 8.213/1991). Um marco histórico, que se consolidou como instrumento essencial de inclusão social, justiça distributiva e efetivação dos direitos fundamentais previstos na Constituição Federal de 1988.
Embora ainda existam desafios relevantes é inegável que a legislação transformou o mercado de trabalho e ampliou oportunidades para milhares de brasileiros. A Lei de Cotas permanece, portanto, como instrumento jurídico de dignidade, cidadania e esperança, reafirmando que igualdade não significa tratar todos da mesma forma, mas garantir que todos tenham oportunidades reais de participar plenamente da vida social e do mundo do trabalho. Um salve especial à inclusão das pessoas com deficiência: 35 anos de conquistas!